sexta-feira, agosto 30, 2013

A casa vida




Díli. O caminho de volta a casa traça um trajeto singular dentro dos diversos bairros da cidade onde a população habita a terra em que construiu as suas casas. A fluidez animada das ruas mais movimentadas e agitadas da cidade parece desaguar, dissipando-se em espaços onde o ruído se desvanece e a sombra de árvores refresca e abriga. A luz é calma. As casas alargam-se aos pátios, aos espaços exteriores, aos caminhos e ruas de terra batida. A casa torna-se não só parede erguida mas presença humana, identidade onde cada momento se inscreve em portas abertas; choros e risos de crianças, música em compasso ritmado que inesperadamente surge de um qualquer canto, dentro e fora de casa. 
A casa constrói-se pela pulsação que os habitantes trazem ao seu dia-a-dia. A casa amplia-se em convívio, transforma-se em sorriso, cumprimentos e palavras trocadas em linguagens que se circunscrevem na voz, em línguas como o português e o tétum, e na expressividade do corpo, um aceno de cabeça, um aperto forte de mãos, o correr divertido, curioso mas despreocupado das crianças, que acompanha o percurso pelo bairro. A casa torna-se comunicação. Enquanto o sol vai desenhando o seu trajeto ao longo do dia, a casa transforma-se em matizadas escritas de cor e luz, fundada entre rotinas diárias e culturais na essência de um povo e ergue-se assim também em ocupação, trabalho, reunião, lazer, diversão, abrigo.
Perto das ruas mais movimentadas da cidade mas resguardadas pelo amparo das árvores que as vigiam e abastecem a refrescante e acolhedora sombra, criando um envolvimento protetor, perde-se momentaneamente a noção de um tempo. Perde-se em si, o próprio conceito de tempo. O tempo será assim tudo aquilo que os habitantes das casas de portas abertas criam para si. Tudo o que vivem dentro e fora das quatro paredes protetoras. O tempo transforma-se também aqui em casa. E a casa torna-se viva. Gerações familiares que perpetuam os seus laços e tradições, anciões de serena presença, homens que vigiam os passos, mulheres que recolhem e acolhem no colo os seus filhos, mulheres que labutam a matéria prima da sua terra, crianças anfitriãs dos bairros presenteando-nos com a simplicidade dos renovados momentos. Um simples apontamento de presenças e de sentidos, e no qual se vão ampliando reavivados sentidos. A casa é por tudo isso vida.

(Dili, Junho de 2013. Texto introdutório ao projecto fotográfico "Casa vida")

1 comentário:

António Baeta disse...

Obrigado por teres escrito nas Paredes Brancas.
Um belíssimo texto, boa amiga.