quinta-feira, agosto 10, 2006

Razões para te agradecer

Porque existes sobre os dias enviesados no vazio.
Porque semeias as perguntas através dos olhos que prolongam o horizonte.
Porque descobres folhas esvaziadas de encontros atordoados pela desilusão.
Porque amachucas as páginas que revelam a sombra das histórias inúteis e banais, e os sonhos que todos desejamos acordados.
Porque predizes anos sem vazio no vazio das palavras que caem dentro de ti.
Porque permaneces onde é preciso eu ir para te encontrar, sem dúvidas ou esperas sussurradas pelos relógios dos outros.
Porque me esperas entre as indecisões e os segundos dos receios inacabados, fugindo a cada passo nos pensamentos desabitados das gentes que nos rodeiam.
Porque não revelas os segundos que te separam do tempo e te descobres por dentro e em vão. Porque encontras em cada sossego, um novo pensamento e um novo chão no mesmo incontornável lugar.
Porque os anjos são teus amigos e o céu está longe de nós.
Porque a terra te inventa dentro do dia e te deixa entardecer.
Porque a noite nos embrulha para nos deixar descobertos na manhã crua sem nunca se esquecer de nós.
Porque a escuridão é uma nódoa nua onde se espelha a nossa solidão.
Porque o fim do dia se repete todos os dias em que estamos sós.
Porque eu me agarro à vida cada vez que te visito ao passado prolongado e projectado nas cidades onde o depois quer habitar.
Porque os sonhos não têm sitio onde pernoitar quando o teu calor chega, do fundo da rua. Porque as estradas ondulam quando os teus pés se sentam nelas.
Porque as calçadas se curvam quando sentem a tua miragem.
Porque eu me faço passagem quando te vejo passar.
Porque és cura na ausência de outras mãos que me possam agarrar.
Porque o abraço se derramou pela ternura desse sorriso sem mundo.
Porque este corpo não é suficiente para agradecer a aragem que te faz existir e onde podes suspirar e adormecer.
Porque te vejo na praia dos sentimentos que de mim se espraiam em imensidão.
Porque em ti descanso o grito feito a chorar pela ilusão de me perder.
Porque me faço existir sem te encontrar e talvez te ame, só e sempre junto ao mar.

(Publicado no DNjovem em Dezembro de 2002)

4 comentários:

andremurta disse...

Mais uma vez as tuas palavras marcam pela sua intensidade.
Beijos amiga.

aya disse...

Belo, muito belo!!!!

António Baeta disse...

Devias insistir no regresso a este teu tempo de escrita, mas em paz... tranquilamente.

Fatma disse...

:)