segunda-feira, abril 24, 2006

Canção de Embalar

Descanso o corpo.
É no soluçar do quarto vazio, cúmplice de silêncios e sonhos antigos, que remendo o presente e repouso os sorrisos dos dias que o vento levou.
O vento comanda esta noite de abrigo, com trancas nas portas e medos suspirando nas janelas. O vento assobia melodias que divagam na solidão dos pensamentos. Passeia-se pelas paredes e toca impiedoso nas feridas da escuridão cerrada. O bafo intenso de uma noite cheia, de luar manso e pretensioso que penteia os meus segredos e alimenta os meus fantasmas serenos. Um sopro mendigo que sucumbe às mesmas palavras. Sopro do desejo de não pertencer à impenetrável perfeição.
Desfalece sobre o mundo a luz da memória e a consciência dos sentidos. Adormeço o universo num só inspirar. Adormeço a demora em meu redor. Aguardo que o vento me leve pela noite à afectuosa espera que chegará cedo. Breve e convincente, a luz beberá do nosso olhar. Sucumbirei ao cheiro madrugador da celebração de um dia novo. A génese imaginada do paraíso quotidiano consagrado ao esquecimento pelo movimento das horas efémeras. Origem de todos os madrugadores inquietos, origem de todas as auroras sem razão.
O vento voga pela vontade de descansar, transpõe a barreira dos devaneios nocturnos. O vento passeia também nos meus pensamentos.
Falo dos horizontes que sopram nos sonhos das noites corrompidas. Falo apenas dos sonhos que caem incessantemente na raiz da divagação. Amanhã reconhecê-los-ei pelo nome. Amanhã tornar-se-ão a mais real prova da minha desilusão.
Descanso o corpo... Descanso a solidão já dormente... Descanso o olhar já sem nexo... Descanso e adormeço.

(Publicado no DNjovem a 21 de Abril de 2006)

2 comentários:

RS disse...

E um dos meus demónios, aqui da fúria se despiu. E do turbilhão em volta, alheando-se, fez espelho e repousou. Um pouco, apenas.
Mas um pouco.

Obrigado,
RS

Antonio disse...

Deixaste-me sem fôlego, querida amiga.