terça-feira, janeiro 17, 2012

Alice no País das coisas simples


Alice não acredita em duendes e não acredita em maldições. Mas acredita em vestidos brancos esvoaçando no vento e acredita em canções. E talvez acredite em fadas. Não acredita em conspirações e enredos mas acredita em tímidos e inocentes segredos.
Alice sonha em viajar pela terra e pelo tempo, pelo braço do seu amando. Alice gosta do seu abraço. Alice adormece todas as noites pelas melodias das cordas da sua harpa encantada. E tempo após tempo revê-se no seu olhar iluminado. Alice estremece quando o ouve dizer que não temos idade, e que a liberdade é igual a um dia de sol e de passos leves pela praia, e de noites sem amanhã, e por vezes sem manhãs. A vida é simples ao seu lado. A vida é maior. E é exactamente, claramente aquilo que é.
Alice não acredita em teorias e mecanismos de distorção que deixem o olhar enevoado e que nos impedem que o sorriso vença, e o seu amor cresce proporcionalmente com essa descrença. Alice acredita que no mais profundo olhar cheio de água, existe ao mesmo tempo o maior dos sorrisos. E como é grande o olhar e o sorriso do seu amado! Sabe bem disso.
Alice gosta de caminhar descalça pela areia da praia, e de tropeçar pelos seus passos distraídos com outros sentidos, nas pedras que lá se escondem partidas em mil pedaços. De mil e uma cores e formas. Carregando com elas todo o peso que delas sentimos quando as carregamos. Alice gosta também da forma como nos sentimos quando amamos.
Alice é uma alma pura, como todas aquelas almas que existem antes de nascer. E nada sente que tem a perder, por acreditar nascer dentro de si todo o amor do seu amado e do mundo.
Acredita na liberdade das estrelas, aquelas que seu amado lhe deu um dia a rever, numa noite de amor profundo. São para ela entes mágicos de claridade no vasto universo feito seu, o céu, ao invés de estanques e prisioneiros pontos de luz extinta no tempo que longamente se estende, inexistentes no seu próprio tempo por se terem já apagado estafadas, após longa viagem por tantos anos luz (quem saberá, talvez por lá morassem as fadas).
Alice dança quando a música lhe chega do ventre iluminado. E canta quando os silêncios lhe segredam melodias ensinadas pelo seu amado. Alice, em quase todos os momentos, apenas sente.
Alice gosta de observar as pessoas à sua volta e descobrir-lhes as necessidades das almas muitas vezes despedaçadas pelo pesado medo diário de mentes em paixões abafadas, oferecendo o seu sorriso como bálsamo tantas vezes necessário. Alice vê. Alice alimenta-se também dos diversos bálsamos que lhe oferece o seu amado. Alice gosta de letras e de histórias e de ouvir contos de um outro tempo passado, onde tudo era mais simples. Onde a chuva era molhada e o calor era apenas quente. E quando vê e ouve o seu amado, gosta do que sente.

Alice vive num jardim de flores conhecidas, as mais belas e apetecidas. E nela não reconhece essa raiz endiabrada das ervas daninhas, que se lhe parece a mais bela de todas, no jardim que ela própria plantou e cuidou. Alice não distingue julgamentos de beleza e cor dentro da sua vida. Alice não gosta muito de adivinhas.
Alice não acredita na dor. Não percebe porque as palavras caladas em si incitam a gritos constantes de um outro lado da cidade. Não percebe porque não pode viver o mundo livre para o amor. Tal como o seu amado. E também Alice acredita na liberdade.

Alice desenha-se mulher em cores e imagens de futuros onde já viveu e que já sonhou, mas que nunca com o seu amado partilhou.
Alice gosta do corpo que sente quando o seu amado a toca, mesmo que de relance. Alice gosta de sentir o seu corpo e o corpo do seu amado. E ama o seu abraço. E com ele estremece, e teme. Alice, no país das coisas simples e presentes, sente, estremece, pressente e teme. Alice que a vida tece. Sim. Estremece.

Alice vive no país da simplicidade.
Alice vive o que se lhe apresenta, e não o que se aparenta. Vive no país das realidades presentes. Vive com o seu amado todos os sentidos neles existentes. Toda a simples inocência. Vive com o seu amado o inquestionável e inevitável reflexo de sua existência. Vive a viver, simplesmente.
E assim os dias lhes passam. E o amor prevalece. Real, verdadeiro e simples. Só o amor permanece. Alice perde a idade. Só o amor lhe pertence. Real, verdadeiro e simples. Nos braços de uma outra amante os braços do seu amado noutra noite adormecem. E noutros olhos alheios a sua luz se passeia. Alice descobre então que todo o amor que sente, apenas persiste por ela. Que nela tropeça por vezes a dor. E que essa ideia, como todas as outras coisas, é real e simples. Como tudo o que resta do amor.

3 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Venho só dizer que está tão bonito que não tenho palavras para dizer o quanto.

Fatma disse...

:)) obrigado!!!

Unknown disse...

Rita está muito bonito! Parabéns. Beijinhos grandes