segunda-feira, janeiro 11, 2010

Não sei escrever

Não sei escrever quando o silêncio se emaranha nas palavras. Obedeço a este pálido intermitente silêncio que constrói falsos e adulterados tectos de estranhas impressões onde se deviam alojar os sentidos. Não sei escrever quando a inquietação abafa a vontade de me sentir também fora de mim. Vou tropeçando nas memórias de poemas imaginados noutros tempos. As palavras travam e esbarram umas nas outras em cruzamentos desencontrados, ferem-se em interpretações desordenadas, brotam dos sentimentos incompletos, e dos anseios de mover a vida em contravolta e seguem de novo em contramão. O silêncio que me desfaz de ti, faz com que os meus pés se movam e cheguem a um mesmo lugar. Faz com que as mão se ceguem no caminho da tua voz do outro lado das tecnologias inertes. O silêncio. A pausa para sonhar. Chama por mim de algum modo, põe-me a escoltar o meu coração, ainda que ele apenas suspire de esperança. Toma o passo, sereno, firme, frio e molhado. Rumo preciso mas em direcção criada por forças mestres da natureza. O vento sopra em mim também. Vagueia no meu corpo e faz ondulá-lo no tempo. Não sei escrever quando os sons se amontoam no que ainda não fiz nem fizeste, não disse nem disseste. Não sei escrever quando apenas espero pelo silêncio, esperando que não seja inerte.

2 comentários:

António Baeta disse...

Quando voltares a sentir essa sensação de não saber escrever, Fátima, por favor, escreve.

Joakasfabio disse...

Impressionante você saber escrever tão bem ao passo que diz não saber escrever. Escreva, por favor escreva!