quarta-feira, agosto 19, 2009

Porque fez calor lá fora...

Porque fez calor lá fora, não me demorei com olhares alheios do outro lado do mundo e guardei-me em casa… A cortina fechada de desencantos criou para mim o improvável cenário de um reinício em calma e contemplação. Uma penumbra que me visitou expectante e desejosa de partilhar vontades inertes e as sombras na parede sussurrando desprezos frios e sarcásticos sobre qualquer outra actividade humana. Tranquei o mundo, de fora, dentro da surdez da indisponibilidade. Atei rotinas aos espaços perpétuamente revisitados, que derretendo com desassossego por não se verem destinadas, se consumiram em retiro. Acho que me vi dançado descalça, calcando a cada passo, a cada ponta, resquícios de corações espalhados pelos sons que me incitavam a escorregar por entre o espaço maleável de uma sala cheia de nada. Passeie-me pelos sons que tombaram, como se de um céu distante descesse todo o seu azul, o mesmo que transborda volta e meia algum olhar. Também se passearam, entre os dedos, sentidos comandados por cândidos intérpretes de sons improváveis, traduzidos em silêncio, e um apego ao corpo que ordenou o movimento e a emoção. Também eu caí aos meus próprios pés. Também me reconheci no toque preciso do comando do corpo, movimentando-se em vão. Assim balançámos sem música, sem espaço, sem som, nem toque, nem tom, nem tempo, pela sala do nada. A mente perdida, o corpo desperto. Mas as muralhas maleáveis do presente desordenaram-se com os passos inseguros desta ainda pouco domesticada dança. O calor que faz lá fora entra pelas frestas das janelas tapadas com negação. A razão reconhece os seus inconstantes desencantos e reabilita sem permissão as suas fraquezas. O corpo retrai-se quando a alma grita em silêncio. Inquieta e improvável contradição. E o tempo volta a sobreviver à sua ausência, o corpo volta a sentir a falta de tempo, e chora em contramão. Soluça o sangue sem lágrimas, nem tristeza, nem punição, pelo aparente regresso aos sentidos. Seguem os impulsos do coração interrompido e inerte, o seu irrequieto curso. Inquestionável memória das sensações e emoções que sobrevivem sem respirar onde o tempo se mistura com o espaço. Talvez o calor arrefeça sem anúncio ou ostentação a cada dia onde passa. Talvez se faça destino encontrar a partícula elementar dos sonhos cálidos que me leve pelas danças de outro lugar, numa improvável direcção.

2 comentários:

António Baeta disse...

Aqui estás inteira, apesar do mundo já fora.
Agora sai!

Fatma disse...

:)