sexta-feira, dezembro 08, 2006

Linha sem tempo

Aos poucos vou deixando cair no chão algumas das minhas envelhecidas vontades.
Perdem-se, de tempo a tempo, os desejos mais apetecidos.
Soltam-se somas pesadas das recomendações diárias que o mundo me sussurra constantemente. E essas nossas verdades assumem contornos dispersos. A contagem dos minutos transforma-se no mais ausente dos meus sentidos. Aceito-me, com prazer, na imensurabilidade dos meios-termos, o novo mundo das intensidades secretas que se concebem entre os opostos. O reviver cada dia de uma só vez. Criar o momento mais concreto, escondido para outros sorrisos, entre o tudo e o nada. A calma de saber existir.
Existo e persisto.
Os dias contornam-se com novas formas e preenchem-se com outras tonalidades.
As linhas largadas, esquecidas e estagnadas em folhas revistas e rasuradas pela demora, já não te perseguem. Os teus rascunhos de um tempo futuro não pertencem a esta nova forma de me traçar sem tempo.
Deixo contigo a demorada despedida e a mala cheia de toda a roupa despida depois de te ter beijado de novo.
Abraços que se perdem junto a lágrimas que ainda teimam em persistir dentro de nós.
Os olhos nublados que ganham um eterno tom cinzento.
Resistir às lágrimas como se o corpo tivesse vontade própria.

3 comentários:

Torquato da Luz disse...

Valeu a pena esperar quase um mês, Fátima.
Um belíssimo texto, cheio de poesia.
Bjs.

António Baeta disse...

Gosto muito de percorrer estes teus textos, que exalam o teu calor e onde nos falas de meditações que parecem estar a acontecer no preciso momento em que as leio.
Um beijo.

Fatma disse...

Baeta, :) outro beijo para ti.

Torquato, o tempo não me tem sido grande aliado nos últimos tempos (apesar da redundância :)). Tenho que o apanhar antes que fuja e quando dê por mim, já tenha passado novo mês. Obrigado. Bjos