quarta-feira, setembro 20, 2006

Meia hora numa estrada sobre o mar

Meia hora é o tempo que demora o passado a passar.
Durante esta meia hora a espera insiste em pedir-me mais um segundo, um instante para repor todos os outros instantes. Um momento para viver em lugar de todos os outros momentos. Prece que se constrói com imperceptíveis sensações para colocar sobre a desilusão. E eu desculpo-me com a falta de sonhos e permito que a razão me destrua os pensamentos e magoe as recordações. Durante esta meia hora espero que o tempo discuta comigo e se vá embora, deixando de novo as ruas secas e desprevenidas, permeando algum encontro desimpedido de culpa. Durante uma hora pela metade, conduzo em caminhos que não levam consigo mapas ou destinos, apagando a cada distância os mais concretos sentidos e realidades. Durante meia hora o céu mais cinzento torna-se trajecto raso onde correm percursos esquecidos e imaginários perdidos. Desfaz-se o que é seguro. Espera-se o inatingível, sempre adiado pelos acasos e pela morte. O tempo sussurra vontades maiores que o próprio mundo, a alma surpreende-se e faz-se a si própria de novo, reinventando-se demente. Não se pode pensar, nem se quer sentir. Mas sente-se. Durante todo este tempo sobretudo sente-se. Tudo se inquieta languidamente entre as paisagens que me acenam constantemente fora da janela do carro, salpicadas de chuva ténue e alguma solidão. E o tempo continua a sentar-se ao meu lado, alguma vezes em vão. Passam presenças que entre tantos enganos resolvem permanecer por aqui. Passam afectos sem fundo e a certeza segura no olhar trocado entre os dois. Passam mil formas de me esquecer do depois.
Meia hora é quanto demora o ruído da máquina que escava os alicerces da sorte. Meia hora apenas e o tempo novamente foge.
Meia hora foi o tempo em que me viste em contramão e sem sombras nem porquês. Foi quando estacionei as esperanças contra a um sonho ainda sem fim, numa estrada com luar. E foi durante esse tempo que me fiz música e mar.
Meia hora feita lugar de passagem e repouso sobre o céu de todos os dias. Meia hora para o olhar se espreguiçar sobre uma janela fechada, para acordar ventanias, para percorrer nova estrada.
Meia hora entre o desassossego de passar entre o instante em que chego e o que serenamente me deixo ir. Antes que o tempo chegue a algum destino sem fim, tudo passa em mim sensivelmente em pouco mais que meia hora.

(Publicado no DNJovem em Janeiro de 2003)

3 comentários:

RS disse...

A eternidade não é mais que um momento que gostaríamos jamais terminar...

Um bom dia.
RS

Antonio disse...

Meia hora é o tempo que medeia entre a minha primeira leitura deste texto e a que faço agora no teu blog; tanto quanto o tempo em que a li e reli, vagarosamente.

Fatma disse...

É uma estranha dualidade: chegar numa meia hora à eternidade e chegar pela eternidade às meias horas que me separam de outros espaços e tempos. Beijos