terça-feira, junho 06, 2006

Antes de partir

Quantas vezes passaste por mim junto à janela que todos os dias se inquieta com a tua presença. E eu junto à solidão estanque do apeadeiro procuro apenas uma visão distorcida de toda a paisagem ao meu redor. As linhas, os passos, o relógio sempre atrasado ou adiantado, o soluçar dos corredores abertos e o silvo agudo da partida que me fere constantemente a alma dos pensamentos vagabundos. O banco deserto de outra companhia que não a do livro a abrir em altura oportuna, pronto a acolher-me a teu lado. Todos os dias cheguei até ti, e desejei. Sempre o tempo foi demais para a minha constante espera pelo cumprimento de um destino incerto que nunca soube criar. Sempre desejei viajar sobre um qualquer trajecto paralelo à paisagem que passa por mim, junto a uma janela onde cada metro me trouxesse a vontade esfomeada de chegar. E sempre esperei. Sempre a estação se juntou a mim nessa espera da decisão certa, o instante infinito em que romperia os limites da vontade para libertar os sentidos agora longínquos e dormentes. É distante essa terra onde o olhar acolhe a luz do regresso. Por vezes o comboio tarda em partir. E os atrasos são encomendas carregadas de uma desajeitada esperança de me deixar ir com o ritmo constante de um caminho desviado das lágrimas, junto a uma janela que me mostrasse o mundo que não cabe ainda em mim. Mas o horário cumpre o seu papel de descarrilar o transporte da imaginação. O bilhete recém comprado adormece no bolso sempre à mesma hora, mais minuto, menos minutos. Os segundos recaem no inevitável chão que deixa de ser paragem. Segues os campos deixados na escrita que morre comigo junto às pedras dos carris enquanto renascem os dias demorados em imagens sobrelotadas do tempo que se estende pela estação. Desce subitamente a cancela descontrolada da cidade que me leva a seguir outra direcção. Junto ao vazio deixado pelo comboio que já se perdeu de novo, resisto solenemente ao encontro da viagem impossível que me levaria a outro lugar. Todos os dias és tu que te sentas nesse banco do comboio e eu vejo-te apenas passar.

(Publicado no DNJovem em Janeiro de 2003)

Continuo a pendurar na parede fotografias do passado. São elas que reflectem o presente neste momento... Em breve mudarão os sentidos e partiremos para outros lugares. Já se sentem no ar os passos que o amanhã seguirá.

1 comentário:

Antonio disse...

Lembro-me ainda tão bem deste teu texto.