sábado, maio 06, 2006

Silêncio e humidade

(breve memória dos sons)


Secaste sozinho as tuas lágrimas, já não me deixas lavar nelas. Calaste as canções e os anúncios da rádio. Trancaste os sons da noite, o noticiário e os relatos de futebol. Levaste o vento que assobiava na janela e na velha chaleira. Os vidros enevoados da água a ferver para o chá. Calaste os sorrisos.
Tudo é silêncio e humidade.
O silêncio é a língua dos corpos sem sombra. É a massa invisível do toque. O recanto, o soluço, o gesto, o sonho, o sossego, o futuro, o espaço mais embaraçado da alma. A casa.
O silêncio é o passatempo dos sonhadores imóveis e o retracto dos aviadores de esperança quando acabam por aterrar. O contratempo dos condutores de vazio que vagueiam sem se notar, espectros inoportunos que acenam desejos ocultos e beijam as mãos antes de as tocar.
O silêncio é a viagem embaciada e desfocada que concebo dos teus olhos.
Tens a dádiva de os ler. Foi essa a língua que aprendeste a usar.
Descreves a vida dos sons mudos que te caem no olhar. E eu recebo-os como a causa que anuncia o desbotar dos sentidos. O ensurdecer das tentações. O tombo inquestionável das resignações fúteis.
Tudo é silêncio e humidade.
Quiseste realçar o pó nas paredes imóveis e despedaçar os vasos com flores secas que não cuidei. Ordenaste a passividade dos sonhos. Construíste-me absorta nos teus pensamentos que já não se escrevem aqui. Sem me aperceber, aqueceste-me na lareira sem lenha, antes de sair.
Amontoado de lume prestes a estrear, acondicionado num sopro de memória. Vento bafio que permaneceu no teu lugar. Sueste nocturno enclausurado na raiz de uma antiga e afeita vontade que não se pode cumprir.
Perdi os recados e as anotações da vida em dicotomia, choquei de frente contra a luz insípida da manhã, cruzei com perícia o caminho dos sonhos e da monotonia.
Creio que chorei. Julgo que te humedecia também o olhar.
Enquanto secava lagrimas desfiadas pelos sons das lembranças corrompidas, fugias dos silêncios que tinha guardado para te dar.


(Publicado no DNJovem a 5 de Maio de 2006)

10 comentários:

Miguel disse...

Excelente texto!

É teu?
Os meus parabéns!

Obrigado pelo link d´A Minha Matilde!

Os votos de um Bom FDS!

Bjks da Matilde

Fatma disse...

Muito obrigado!:) é meu sim. Por enquanto têm sido todos.E quanto ao link, é um prazer tê-lo cá. Gosto muito de visitar a Matilde. Um optimo fds tb.

Bjos Fatma

lenia disse...

fátima...

a admiração é mútua! também te acompanho no DNj há us tempinhos... e gosto... muito!

vou continuar por lá... e por aqui...

Paulo José Miranda disse...

A tua escrita é muito bonita.
Obrigado.

RS disse...

Cara Fatma,
Um texto tão singelo não merece uma gralha destas, por isso chamo a atenção para ela: existe nele uma viagem com "j". :)
(só a quem não escreve, minha cara, só a quem não escreve...)

Um abraço,
RS

Fatma disse...

Caro Rui:
Obrigado pela dica. (Há que ter mais atenção e por vezes necessito dessas achegas para não deixar que outras(gralhas)apareçam...:))

Bjos
Fatma

Fatma disse...

Paulo:
Sou eu quem agradeçe a visita e as palavras.
Obrigado

Anónimo disse...

Agradece. Sem cedilha, certo?

Fatma disse...

Certo! Certíssimo.:) Isto anda crónico... anda a repetir-se muitas vezes (infelizmente)...

Antonio disse...

"O silêncio é a língua dos corpos sem sombra. É a massa invisível do toque. O recanto, o soluço, o gesto, o sonho, o sossego, o futuro, o espaço mais embaraçado da alma. A casa."
Como gostei!?