terça-feira, março 25, 2014

Luz baça

A luz baça do quarto vazio onde a noite sem trajeto adormece
Despida de outra respiração ou vida
Desenha uma alma vagabunda, segredando cansada,
Que aqui permanece possivelmente perdida.

segunda-feira, março 24, 2014

Distâncias I


Não saberei dizer com palavras
Tudo o que os dias vão escrevendo com a espera do olhar.
Não existirá tempo que abrace o teu corpo ausente e
Não encontrará o corpo este tempo inscrito nos segundos de volta
A um outro momento presente,
Onde sobrevive o mar e o vento,
Onde as frases viverão
Serena e suavemente,
Em simples sequências da palavra amar. 

domingo, fevereiro 16, 2014

Deste lado

Quando o ar nos engole e nos cospe para fora da realidade onde sempre vivemos, faz-nos rastejar sem corpo, e soluçar sem água. Faz-nos perder o ultimo toque da luz que nem à memória nos chega por ser tanta a sua distância. Faz-nos suspirar sem som, e calar sem ter palavras para o fazer. Faz-nos desistir de o ser. De entre tudo o que resta permanece apenas um lugar vazio. O vazio, mestre nas suas infinitas paisagens. Por fim os olhos fecham-se.

Quando sem nos apercebermos se abrem, o que anteriormente se viveu flutua num espaço limitado e pouco iluminado, onde o sangue se sente e se segue. Teima em constante retorno dentro de mim. Está na minha frente, precoce, inconstante, frágil e renitente, a réstia de uma qualquer esperança a chegar a mais um dia sem que este pareça sem fim. Sobreviveremos sempre aos sentidos trocados, às palavras dolorosamente cravadas, aos abraços descuidadamente deixados noutro tempo e aos beijos desencontrados, às mãos que deixarão de ser dadas. Sempre. É a esperança teimosamente a fazer-se vencer.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

E...

     ... quando foi que me perdi de todas estas palavras?

domingo, dezembro 01, 2013

Nada...


Não há memória possível de descrever nesse espaço sem tempo. Nem sorriso possível de repetir. Nem som que me faça mover sem sentido. Não há partícula que alcance a superfície da pele. Não há. Não há expressão. Não há sentido.
É o branco que me chama aqui. O imaginar cálido do nada. Da cor que tudo recebe. Onde me transporto sem nada comigo levar. Não há passado, não há futuro, nem há sequer presente nestas palavras. Tudo desvanece no nada. E do nada ressoa uma pulsação ilusória que me adormece. Voltarei a perder-me nas linhas numa outra dimensão com sentido, quando o sentido se repor, quando a memória ressuscitar, quando o soluçar tropeçar nesta matéria pouco concreta, quase secreta, pouco provável, provavelmente etérea, evaporada. Mas por enquanto, o que me leva ao mundo e o que me lava a alma dormente e desamparada, é simplesmente nada…

sexta-feira, novembro 22, 2013

De outras páginas...



“Ítaca deu-te essa viagem esplêndida
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
Terás compreendido o sentido de Ítaca”.


Konstantin Kavafis

sexta-feira, agosto 30, 2013

A casa vida




Díli. O caminho de volta a casa traça um trajeto singular dentro dos diversos bairros da cidade onde a população habita a terra em que construiu as suas casas. A fluidez animada das ruas mais movimentadas e agitadas da cidade parece desaguar, dissipando-se em espaços onde o ruído se desvanece e a sombra de árvores refresca e abriga. A luz é calma. As casas alargam-se aos pátios, aos espaços exteriores, aos caminhos e ruas de terra batida. A casa torna-se não só parede erguida mas presença humana, identidade onde cada momento se inscreve em portas abertas; choros e risos de crianças, música em compasso ritmado que inesperadamente surge de um qualquer canto, dentro e fora de casa. 
A casa constrói-se pela pulsação que os habitantes trazem ao seu dia-a-dia. A casa amplia-se em convívio, transforma-se em sorriso, cumprimentos e palavras trocadas em linguagens que se circunscrevem na voz, em línguas como o português e o tétum, e na expressividade do corpo, um aceno de cabeça, um aperto forte de mãos, o correr divertido, curioso mas despreocupado das crianças, que acompanha o percurso pelo bairro. A casa torna-se comunicação. Enquanto o sol vai desenhando o seu trajeto ao longo do dia, a casa transforma-se em matizadas escritas de cor e luz, fundada entre rotinas diárias e culturais na essência de um povo e ergue-se assim também em ocupação, trabalho, reunião, lazer, diversão, abrigo.
Perto das ruas mais movimentadas da cidade mas resguardadas pelo amparo das árvores que as vigiam e abastecem a refrescante e acolhedora sombra, criando um envolvimento protetor, perde-se momentaneamente a noção de um tempo. Perde-se em si, o próprio conceito de tempo. O tempo será assim tudo aquilo que os habitantes das casas de portas abertas criam para si. Tudo o que vivem dentro e fora das quatro paredes protetoras. O tempo transforma-se também aqui em casa. E a casa torna-se viva. Gerações familiares que perpetuam os seus laços e tradições, anciões de serena presença, homens que vigiam os passos, mulheres que recolhem e acolhem no colo os seus filhos, mulheres que labutam a matéria prima da sua terra, crianças anfitriãs dos bairros presenteando-nos com a simplicidade dos renovados momentos. Um simples apontamento de presenças e de sentidos, e no qual se vão ampliando reavivados sentidos. A casa é por tudo isso vida.

(Dili, Junho de 2013. Texto introdutório ao projecto fotográfico "Casa vida")

sábado, novembro 10, 2012

"Uma carta..."


A suprema carta. Com todas as palavras a dizer. Com todos o sentidos. Todas as notícias. Todos os recados. Todas as saudades. Todas as despedidas. Todos os desejos. Toda a poesia. Todas as paisagens. Todas as emoções. Todas as sensações.
Todos os silêncios.
Magnifica. Eterna. Infinita.
Escrevi-a hoje.
Para ninguém.
E depois de a ter enviado
Sentei-me a descansar.
E dei-me a mim a sorrir.  

sábado, agosto 18, 2012

Da ilha do crocodilo

Começar a escrever sobre esta “viagem” é como começar a escrever sobre a vida. Há sempre muito a contar , a descobrir e redescobrir, a sentir e a viver dentro e fora de nós. Dias que vão passando e palavras que parecem pouco sábias para traduzir o que os sentidos nos vão deixando na alma. E na pele. Talvez não saiba ainda como descrever objectivamente lugares, pessoas, momentos, paisagens, cheiros, vivências, sabores, e os diversos verbos dos meandros da vida por aqui. Inquestionavelmente fico constantemente dificultada e ao mesmo abismada pelo passar pouco comum do tempo que se encolhe e alarga de modo invulgar por estas paragens de aragens impregnadas de pó, fumo, maresia, suor, humidade, folhas e terra. Esta é uma cidade de inquestionáveis contrastes e misturas. Onde pés descalços e desconfiados se misturam com sorrisos descontraídos, com olhares curiosos e por vezes intrusivos, com passos indiferentes e com palavras desconhecidas procurando por vezes conversas animadas. Talvez o seja assim em todos os lugares e olhares dos diversos mundos onde habitamos e visitamos. Mesmo os que todos os dias temos em “casa”. Mas esta terra não é de realidades fáceis. Existe nela, no entanto, um qualquer e incompreensível encanto que me foi instantaneamente cativando. Com o passar do tempo os pé ganham a cor da terra por onde andam e que neles se entranha. Com o passar do tempo os cheiros fazem já parte da identidade de um lugar que se vai descobrindo também em mim... Com o passar do tempo a cidade vive-se e respira-se com todos as suas mil e uma histórias e identidades também. E com o passar do tempo as palavras tornar-se-ão, talvez, mais fluidas e intrínsecas.

quinta-feira, abril 26, 2012

E..

... as palavras que se apressam enchendo-me a mente e os sentidos mas tardam em encher as paginas e as histórias.

Pergunto-vos... (III)

Qual a pergunta que vos ficou por fazer?

...


sexta-feira, março 30, 2012

Mudando mundos

Em poucos meses tudo muda. Desfazem-se laços, criam-se outros, reforçam-se outros tantos. Perdem-se raízes mas ganham-se asas e reencontra-se o sangue reconfortante de quem sempre nos viu viver, mesmo de longe. Recomeça-se. Renasce-se. Perdoa-se. Fazem-se despedidas. Sobrevive-se às quedas chorando e agradecem-se as benção sorrindo. E abraça-se quem, mesmo em silêncio, nos pede abraços fortes e portos seguros. Os olhos recebem o mundo inteiro e retribuem brilhantes. Ama-se com um profundo agradecimento e afecto quem nos ama. Sente-se cada momento, antes trancado na mente e em vidas alheias. Caminha-se passo a passo. Agora é-se. Agora vive-se. Agora. Em poucos meses deixou de existir um passado para existir um presente. E este é realmente, sempre, "o primeiro dia...".

sexta-feira, março 23, 2012

...

Sinto-o agora. Não há paixão de não siga para outras paisagens junto ao vento, nem coração que não se esvazie, para que de novo se possa encher de outro sangue. Não há som que permaneça estanque, nem memoria que se tolde a um constante e imutável infinito. Não há momento que não passe, nem estrada em que não se caminhe, seja para partir ou para chegar. Não há dia que da luz se canse nem noite que não se transforme em luar. E existirá sempre um novo, impressionante e imprevisível olhar.

terça-feira, março 20, 2012

domingo, março 18, 2012

Velhos hábitos

Tantas vezes se despediram, que ficaram acorrentados ao hábito de amar e de se olhar, sempre pela última vez. E assim eternizaram durante toda a vida, sem que se conseguissem largar,  a sua despedida.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

...

Hoje resolvi disfarçar-me de solidão. E é tão bom o meu disfarce que quase acredito que é solidão, realmente, aquilo que sinto...

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Para ti

É pelo olhar que me vejo, pelo ar que me cheiro e respiro, pela boca que me saboreio, pela pele que me toco. É pelo vento que me elevo, pelos raios de sol que me aqueço, pela terra crente que caminho, pelos sons e silêncios que me guio. Tudo isso me faz chegar aqui e escrever-te. Tudo isto me trazes, sem o saberes, enquanto caminhas em mundos que sempre existiram em nós. E tudo isto sem me veres, me deste a viver. Como deixar então de escrever para ti? Quanta maior distância me trespassa nos relógios, calendários, ruas, cidades e outras eternidades, mais me chegas perto e com mais forma me sinto perto de ti. E querer dizer que te amo, e que nunca o deixei de fazer. E querer dizer que há amores eternos no sentir de cada coisa que encontramos no dia a dia. Que pode ser que nunca nos reencontremos, mas que serei sempre tua. Porque me deste olhares novos com que vejo, cheiros que, com sofreguidão respiro, sois de todas as estações que na pele pressinto reinventados em canções, chuvas de Março, areias de tempos sem dono, as mãos com que os dedos se entrelaçaram, os abraços que na memória revisitamos. Deste-me ventos de fantasia, sementes de alegria e uma ou outras lágrima, apenas para as feridas lavar. Deste-me passos. Deste-me paisagens. Fizeste-me caminhar. Passos para seguir para qualquer lado, passos que me fazem também regressar. Deste-me passos que caminham para longe da solidão. Por tudo isso não posso deixar de te escrever, de te amar, de te ter, de te ser. Só existirão despedidas para lugares, tempos e outros amares. Só existe um único adeus para a moribunda paixão. Somos sempre partes de quem por dentro nos viveu. E vamos indo com o tempo, ou com o vento, para onde ele nos levar. Entre a terra e o céu.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Alice no País das coisas simples


Alice não acredita em duendes e não acredita em maldições. Mas acredita em vestidos brancos esvoaçando no vento e acredita em canções. E talvez acredite em fadas. Não acredita em conspirações e enredos mas acredita em tímidos e inocentes segredos.
Alice sonha em viajar pela terra e pelo tempo, pelo braço do seu amando. Alice gosta do seu abraço. Alice adormece todas as noites pelas melodias das cordas da sua harpa encantada. E tempo após tempo revê-se no seu olhar iluminado. Alice estremece quando o ouve dizer que não temos idade, e que a liberdade é igual a um dia de sol e de passos leves pela praia, e de noites sem amanhã, e por vezes sem manhãs. A vida é simples ao seu lado. A vida é maior. E é exactamente, claramente aquilo que é.
Alice não acredita em teorias e mecanismos de distorção que deixem o olhar enevoado e que nos impedem que o sorriso vença, e o seu amor cresce proporcionalmente com essa descrença. Alice acredita que no mais profundo olhar cheio de água, existe ao mesmo tempo o maior dos sorrisos. E como é grande o olhar e o sorriso do seu amado! Sabe bem disso.
Alice gosta de caminhar descalça pela areia da praia, e de tropeçar pelos seus passos distraídos com outros sentidos, nas pedras que lá se escondem partidas em mil pedaços. De mil e uma cores e formas. Carregando com elas todo o peso que delas sentimos quando as carregamos. Alice gosta também da forma como nos sentimos quando amamos.
Alice é uma alma pura, como todas aquelas almas que existem antes de nascer. E nada sente que tem a perder, por acreditar nascer dentro de si todo o amor do seu amado e do mundo.
Acredita na liberdade das estrelas, aquelas que seu amado lhe deu um dia a rever, numa noite de amor profundo. São para ela entes mágicos de claridade no vasto universo feito seu, o céu, ao invés de estanques e prisioneiros pontos de luz extinta no tempo que longamente se estende, inexistentes no seu próprio tempo por se terem já apagado estafadas, após longa viagem por tantos anos luz (quem saberá, talvez por lá morassem as fadas).
Alice dança quando a música lhe chega do ventre iluminado. E canta quando os silêncios lhe segredam melodias ensinadas pelo seu amado. Alice, em quase todos os momentos, apenas sente.
Alice gosta de observar as pessoas à sua volta e descobrir-lhes as necessidades das almas muitas vezes despedaçadas pelo pesado medo diário de mentes em paixões abafadas, oferecendo o seu sorriso como bálsamo tantas vezes necessário. Alice vê. Alice alimenta-se também dos diversos bálsamos que lhe oferece o seu amado. Alice gosta de letras e de histórias e de ouvir contos de um outro tempo passado, onde tudo era mais simples. Onde a chuva era molhada e o calor era apenas quente. E quando vê e ouve o seu amado, gosta do que sente.

Alice vive num jardim de flores conhecidas, as mais belas e apetecidas. E nela não reconhece essa raiz endiabrada das ervas daninhas, que se lhe parece a mais bela de todas, no jardim que ela própria plantou e cuidou. Alice não distingue julgamentos de beleza e cor dentro da sua vida. Alice não gosta muito de adivinhas.
Alice não acredita na dor. Não percebe porque as palavras caladas em si incitam a gritos constantes de um outro lado da cidade. Não percebe porque não pode viver o mundo livre para o amor. Tal como o seu amado. E também Alice acredita na liberdade.

Alice desenha-se mulher em cores e imagens de futuros onde já viveu e que já sonhou, mas que nunca com o seu amado partilhou.
Alice gosta do corpo que sente quando o seu amado a toca, mesmo que de relance. Alice gosta de sentir o seu corpo e o corpo do seu amado. E ama o seu abraço. E com ele estremece, e teme. Alice, no país das coisas simples e presentes, sente, estremece, pressente e teme. Alice que a vida tece. Sim. Estremece.

Alice vive no país da simplicidade.
Alice vive o que se lhe apresenta, e não o que se aparenta. Vive no país das realidades presentes. Vive com o seu amado todos os sentidos neles existentes. Toda a simples inocência. Vive com o seu amado o inquestionável e inevitável reflexo de sua existência. Vive a viver, simplesmente.
E assim os dias lhes passam. E o amor prevalece. Real, verdadeiro e simples. Só o amor permanece. Alice perde a idade. Só o amor lhe pertence. Real, verdadeiro e simples. Nos braços de uma outra amante os braços do seu amado noutra noite adormecem. E noutros olhos alheios a sua luz se passeia. Alice descobre então que todo o amor que sente, apenas persiste por ela. Que nela tropeça por vezes a dor. E que essa ideia, como todas as outras coisas, é real e simples. Como tudo o que resta do amor.