Porque os pensamentos se atropelam constantemente e os sentidos se cruzam em inúmeras direcções, não saberei o que escrever quando as horas se cumprirem no lado errado da geografia dos meus abraços fechados, quando a distância que me leva amanhã para o aquém me ditar a vontade de a mim mesma me redimir.
E assim, a escolha se faz mudança e a rotina dita descrentes e absurdos mecanismos, entorpecendo os sons e os silêncios. E assim, contando segundos que da janela do carro vão sobejando, não cabo dentro de mim, apenas existo e persisto por fora. Porque o vento de que me alimento não sopra por essas paragens. Esse outro mar não recolhe imagens de cores transfiguradas pelos meus sonhos, mesmo distantes. Esse mar não me pertence. Esse mar não me reflecte no olhar. O céu é uma mancha de azul esbatido e vacilante, que não respira em mim.
E mesmo a tua ausência, perpétuo mantimento de uma alma insaciável, é agora supérflua e impotente, e não desalenta sequer qualquer provável solidão.
Todos os dias viajo em estranhas estradas. Todas as semanas sigo para destinos contrários à criação. Todos os regressos a casa são desejos enaltecidos e consumados e partir torna-se uma repetição corroída e incompreensível. Nada poderei dar de mim se a mim não retornar o que me faz inteira e concreta. Cresço em mim pela vontade de receber mas “cresço em mim pela vontade de me dar”. O peso dos dias torna-se assim perversamente visível no corpo, mesmo que de mim os sorrisos se passeiem nos olhares alheios. Não me construo com esse compromisso. É inacessível o olhar paciente de quem quer alcançar outro dia. É inacessível esse apetecido crescimento e esse descontraído contentamento quando o tempo e o corpo não querem ou não conseguem consumar o seu dever.
Por agora, porque o tempo em mim fica imóvel, tudo me dói no corpo incomodado e rarefeito, mas tudo se me escapa e passa, quando te o escrevo.
domingo, outubro 25, 2009
quarta-feira, outubro 14, 2009
"Tem vida"
"- É bonita essa música, é uma valsa?
- É um tango, é uma das minhas músicas preferidas... E tem qualquer coisa de... Tem paixão...
- Tem vida!"
segunda-feira, outubro 05, 2009
"Todo cambia"
"Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño
Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana
..."
Mercedes Sosa (1935-2009)
A parede continua a registar alguns traços da vida que por cá fica. Os legados dos que já não respiram por cá, mas que me fazem respirar.
domingo, setembro 27, 2009
sábado, setembro 26, 2009
Não saber viver
Talvez não saiba como viver sem o sentimento que por ti fui inventando e construindo.
Porque a razão o construiu de mãos dadas com o coração e, embora inexistente agora, sobejam-me argumentos que não o deixam contrariar. É uma constante visita à casa demolida de alguém que mudou há muito de morada.
Porque a razão o construiu de mãos dadas com o coração e, embora inexistente agora, sobejam-me argumentos que não o deixam contrariar. É uma constante visita à casa demolida de alguém que mudou há muito de morada.
segunda-feira, setembro 21, 2009
Quando o silêncio se torna tempo...
Este silêncio é como o suspiro de um pensamento em branco quebrando com o peso imensurável de todos os vazios, quando abro a porta de casa.
Um sentido disperso, tresmalhado, alheio aos tumultos e batimentos apressados do coração.
A mão no peito para sentir, a mão para medir, a mão confrontando e consolando o sorriso e a solidão. A mão sem sentido para socorrer preces que surgem abafadas pelo silêncio. Percorrer a pulsação. O ostinato dos pensamentos em ritmo de bossa nova.
A luz estanque. Pausa no encadear de ideias que persisto em querer deixar marcadas numa tua vida. As mesmas palavras. Uma nova ordem nas palavras que quero dar.
A memória descarrega imagens em perspectivas privadas e abstractas.
O sol escorregou em câmara lenta na trajectória impotente do céu morno sem saber como regressar. Recolheu e ordenou os pedaços rasgados do passado. E respirou com um só sopro.
Entrou em casa e fechou a porta.
Um sentido disperso, tresmalhado, alheio aos tumultos e batimentos apressados do coração.
A mão no peito para sentir, a mão para medir, a mão confrontando e consolando o sorriso e a solidão. A mão sem sentido para socorrer preces que surgem abafadas pelo silêncio. Percorrer a pulsação. O ostinato dos pensamentos em ritmo de bossa nova.
A luz estanque. Pausa no encadear de ideias que persisto em querer deixar marcadas numa tua vida. As mesmas palavras. Uma nova ordem nas palavras que quero dar.
A memória descarrega imagens em perspectivas privadas e abstractas.
O sol escorregou em câmara lenta na trajectória impotente do céu morno sem saber como regressar. Recolheu e ordenou os pedaços rasgados do passado. E respirou com um só sopro.
Entrou em casa e fechou a porta.
domingo, setembro 20, 2009
...
O simples e o complexo. O similar e o contraditório. Às vezes sei, outras vezes não sei. Uma vezes sim, outras vezes nem por isso...
segunda-feira, setembro 07, 2009
Jazzie Trio :)
Um pouco de divulgação... :)
(..e uma boa oportunidade de quebrar o silêncio da parede.)
domingo, agosto 30, 2009
sexta-feira, agosto 28, 2009
Casa pré-fabricada
Casa Pré-fabricada
Interprete: Maria Rita
"Abre os teus armários
Eu estou a te esperar
para ver deitar o sol
sob os teus braços castos
Cobre a culpa vã
até amanhã eu vou ficar
e fazer do teu sorriso um abrigo
Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim
qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais
Vale o meu pranto
que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela
primavera quer entrar
pra fazer da nossa voz uma só nota.
Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um canto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
que explique a minha paz
Tristeza nunca mais..."
Composição de Marcelo Camelo
domingo, agosto 23, 2009
sexta-feira, agosto 21, 2009
des - esperar
quarta-feira, agosto 19, 2009
Porque fez calor lá fora...
Porque fez calor lá fora, não me demorei com olhares alheios do outro lado do mundo e guardei-me em casa… A cortina fechada de desencantos criou para mim o improvável cenário de um reinício em calma e contemplação. Uma penumbra que me visitou expectante e desejosa de partilhar vontades inertes e as sombras na parede sussurrando desprezos frios e sarcásticos sobre qualquer outra actividade humana. Tranquei o mundo, de fora, dentro da surdez da indisponibilidade. Atei rotinas aos espaços perpétuamente revisitados, que derretendo com desassossego por não se verem destinadas, se consumiram em retiro. Acho que me vi dançado descalça, calcando a cada passo, a cada ponta, resquícios de corações espalhados pelos sons que me incitavam a escorregar por entre o espaço maleável de uma sala cheia de nada. Passeie-me pelos sons que tombaram, como se de um céu distante descesse todo o seu azul, o mesmo que transborda volta e meia algum olhar. Também se passearam, entre os dedos, sentidos comandados por cândidos intérpretes de sons improváveis, traduzidos em silêncio, e um apego ao corpo que ordenou o movimento e a emoção. Também eu caí aos meus próprios pés. Também me reconheci no toque preciso do comando do corpo, movimentando-se em vão. Assim balançámos sem música, sem espaço, sem som, nem toque, nem tom, nem tempo, pela sala do nada. A mente perdida, o corpo desperto. Mas as muralhas maleáveis do presente desordenaram-se com os passos inseguros desta ainda pouco domesticada dança. O calor que faz lá fora entra pelas frestas das janelas tapadas com negação. A razão reconhece os seus inconstantes desencantos e reabilita sem permissão as suas fraquezas. O corpo retrai-se quando a alma grita em silêncio. Inquieta e improvável contradição. E o tempo volta a sobreviver à sua ausência, o corpo volta a sentir a falta de tempo, e chora em contramão. Soluça o sangue sem lágrimas, nem tristeza, nem punição, pelo aparente regresso aos sentidos. Seguem os impulsos do coração interrompido e inerte, o seu irrequieto curso. Inquestionável memória das sensações e emoções que sobrevivem sem respirar onde o tempo se mistura com o espaço. Talvez o calor arrefeça sem anúncio ou ostentação a cada dia onde passa. Talvez se faça destino encontrar a partícula elementar dos sonhos cálidos que me leve pelas danças de outro lugar, numa improvável direcção.
domingo, agosto 16, 2009
sábado, agosto 15, 2009
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