quinta-feira, agosto 25, 2016

O movimento alheio

Dentro de mim existe sempre um movimento alheio. Um compasso sem espera. Um mexer sem sentido de todos os outros sentidos. Um simples estado de ser. À volta sobrevive o ar e algum espaço livre para não tropeçar em coisas desnecessárias, ainda que todas as coisas sejam desnecessárias ou se transformem em tal quando o corpo se eleva para outros sentidos. Não importa a direcção, nem a canção ou até mesmo a pulsação: o contratempo dos tempos por contar na mente em permanente acção que nesta dança, dando por si estanque nos deixa volta e meia viver. Que se desencadeie agora e pelo corpo a revolução. Que reste a falta de pulsação se o momento de algum modo se iniciar. Tudo há-de eventualmente soluçar e ondular na invisível transformadora vibração gerado pelo tempo desencontrado.
O movimento é simultaneamente pesado e leve. Permanente e perene. É o meio dos meios sentidos. O movimento é o grito dos silêncios também em movimento. Uma espiral de tempos e espaços que se reconhecem de novo….  É simultaneamente o delírio e o descanso dos meus deuses. É a simplicidade de um simples respirar, o expirar de inspirações contrastantes e o mais complexo dos meus complexos devaneios …  Como se concreta fosse a sombra que as paredes brancas tingem desta dança breve e inocente. E fugaz o desenhar de passos que agora, enquanto me leio, não existem mais que em memória e ilusão. Como se a chuva na sua essência molhada e o sol quente e a luz clara, ainda que por vezes baça, se encandeassem num só movimento sem culpa ou perdão.
O presente sem qualquer apresentação. Hei-lo pleno e sobreano envolvendo-se nos meus pés, nos meus braços, na minhas mãos, … . O movimento desfaz-se de novo como àgua gelada que entra em ebulição. (…) balançando entre a calma e a inquietação. (…) O movimento dá início à acção.